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"Em
1942, um seringueiro estava fazendo suas necessidades e, de repente,
uma onça deu pulo na direção dele. Mas por
sorte, perdeu o salto e o seringueiro deu no pé. Hoje ainda
existe o pau da gata mas não dentro da mata e sim no campo,
atrás de uma moita"

"Antes
as embarcações davam duas viagens durante o inverno
e não conseguiam transportar toda a borracha do Acre. Os
comerciantes e seringalistas, para facilitar o transporte, faziam
balsas e colocavam mil pélas de borracha que saía
baixando o rio na responsabilidade de três pessoas"

"Burro
não sobe escada e no desenhos e vê ele na altura de
uns oito metros, ou dez. Embaixo, um simples homem sem ter sandálias
no pé. É para ficar lembrando daquele tempo passado
que existia os coronéis..."

"A
frente da cidade (de Rio Branco) em 1962 era assim. Só que
essas casas que vemos no desenho, caíram com a construção
da ponte metálica"
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Entrevista:
Cristina Leite
Fotos: Marcos Vicenti
Hélio
Melo nasceu e passou boa parte de sua vida - dos 12 aos 41 anos
- dentro de um seringal. Foi entre o corte nas estradas de seringa,
que o artista rabiscou seus primeiros desenhos e aprendeu a tirar
som do primeiro instrumento: um violão. Mais tarde, ele iria
abandonar este e um outro instrumento - o cavaquinho - pela paixão
ao violino, que aprendeu a tocar de ouvido, no meio da floresta.
Encantado com a beleza e os mistérios da Amazônia,
o pequeno Hélio aproveitava as horas de folga preenchendo
folhas brancas com desenhos que misturavam lápis e uma tinta
extraída do sumo de uma planta. Em 1959, deixou para trás
o seringal e veio para Rio Branco em busca de uma vida melhor para
a família. Na capital acreana, foi trabalhar como catraieiro,
levando e trazendo passageiros de uma margem à outra do rio
Acre. No início da década de 70, com a construção
da primeira ponte ligando os dois lados da cidade, a procura pela
velha catraia diminuiu e Hélio Melo tratou de arrumar outro
ofício que lhe garantisse o sustento da mulher e dos cinco
filhos. Foi barbeiro ambulante e depois vigia. Em meados da década
de 80, matriculou-se num curso ministrado pelo também pintor
Genésio Fernandes. Confira a última entrevista antes
da sua morte, onde fala um pouco sobre seu trabalho e porque acabou
se tornando pintor.
Quando
o senhor descobriu que tinha vocação para as artes?
Desde
os oito anos de idade, quando ainda morava no seringal e tentava
fazer algumas pinturas a lápis. Meus pais admiravam o trabalho
e diziam que eu tinha tendência para ser pintor. Daí
em diante passei a acreditar no meu talento, que é um dom
dado por Deus. E também aprendi a tocar violino...
Como
o senhor aprendeu a tocar violino em pleno seringal?
Com
muita dificuldade, mas sempre acreditando que cada um nasce com
seus dons. Tinha 22 anos quando apareceu um senhor, de nome Raimundo
Gomes, com um violino e eu fiquei impressionado com o som do instrumento.
Passados alguns meses fui informado que no seringal Recreio, um
índio chamado José Rufino havia feito um violino.
Fui lá, comprei por 20 mil réis. O cabelo do arco
era de linha de costura número 40. Assim, tudo deu certo.
Eu tinha tanta vontade de tocar violino e quem me ajudou foi um
irmão que tocava violão. A gente afinava da mesma
maneira o violino e daí ficava fácil aprender os tons.
Com seis meses de persistência aprendi a fazer zoada e logo
mais passei a tocar nas festinhas, recebendo uns trocados. O acompanhamento
da orquestra era o ralo e o checo-checo, um tamborim feito de uma
lata de querosene com a borracha tirada da capa da bacia e um violão
ou um cavaquinho. Já estava completa a banda. Antes de iniciar
a tocata, eu dizia pros companheiros: Olha, quando eu errar, vocês
não parem não. Deixa que eu atalho adiante. E assim
fui levando até aprender o ritmo.
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O
senhor aprendeu a tocar outros instrumentos?
Comecei
tocando violão e cavaquinho, mas depois optei somente pelo violino,
que é o instrumento da minha paixão. Hoje tenho um conjunto,
o "Sempre Serve", formado por pessoas que cortaram seringa mas
que também conhecem os ritmos de samba, bolero, valsa, xote e xerém.
E tenho várias músicas de minha autoria, como "Lembrança
do Seringal", um choro que chama atenção...
E a pintura?
Aí
era porque eu tinha um desejo de escrever. Quando foi em 1975, fiz umas
dez ou quinze páginas de um livro e mostrei para um filho meu.
Ele disse: "Papai, não faça isso. O senhor não
tem universidade e quer escrever um livro. O senhor só tem o terceiro
ano primário e como é que quer escrever?" Eu cursei
o terceiro ano lá no seringal. Aí eu parei. Quando foi em
1981, não me contive, não. Tanta coisa pros alunos aprenderem,
que em livro não encontram. Você vai atrás de saber
de história de seringueiro nas bibliotecas e não encontra.
Eu fui buscar mais longe, fui buscar o caucho, que foi nossa primeira
borracha. Eu escrevi essa história. Depois que comecei a pintar
de verdade passei a retratar o homem do campo com todos os detalhes. Então,
como aprendi sem professor, pode me chamar de pintor da floresta. Porque
só quem viveu lá dentro é capaz de descobrir os mistérios
da natureza através dos nossos irmãos índios, donos
da floresta. O título do meu trabalho é selva amazônica.
Isso porque tenho um estilo diferente de outros pintores. Se você
prestar atenção, vai conhecer onde se encontra desenho de
Hélio Melo, pois nunca mudei meu estilo.
Quantos
quadros o senhor já pintou?
Pra lá
de mil.
O senhor
chegou a participar de exposições no exterior, não?
Participei
de duas: uma nos Estados Unidos e outra na Itália, onde expus meus
trabalhos em Lucas, na Igreja São Cristóvão, em outras
cidades e por último em Roma e Pescara. Ainda hoje agradeço
ao Francisco Gregório Filho, que na época era presidente
da Fundação Cultural do Estado do Acre, por essas duas viagens.
Ele me deu um dinheiro e pediu para não divulgar na imprensa. Que
Deus o recompense.
Deu para
vender muitos quadros?
Ah, com certeza.
Agora, o que eu não tive foi sorte. A derradeira vez que eu vendi
meus quadros, na Itália, deu um dinheiro bom. Mas quando voltei,
veio o Collor e levou quase tudo. Foi um prejuízo danado, mas valeu
à pena...
Quantos
quadros o senhor faz por ano?
Eu não
sei precisar... Às vezes a gente faz um desenho em cinco dias e
também tem desenho que a gente gasta dez dias e não consegue
aprontar.
Depende
da inspiração?
Não
depende de inspiração, e sim de disposição.
Tem semana que eu não quero nem saber de desenhar, aí tem
alguma coisa, o corpo não está funcionando bem ou é
preguiça que está na "cacunda".
A venda
de quadros é a sua principal fonte de renda?
Não.
Sou soldado da borracha aposentado. Ganho dois salários. Pelejei
para ter um ordenado melhor mas não consegui. Agora, quando vendo
um quadro ganho um pouquinho mais.
Quanto
custa um quadro de Hélio Melo?
Depende do
quadro, do tamanho dele. Cobro pelo valor do quadro, pela mensagem que
ele traz. Por exemplo, tenho quadros pequenos com um preço razoável,
de R$ 200, R$ 250. Mas tenho alguns grandes, no preço de R$ 3 mil.
O último que produzi, não vendo por menos que isso.
E quanto
aos livros?
Tão
cedo não quero mexer com livros porque há uma grande dificuldade
de publicar. Hoje meus livros estão esgotados e tenho recebido
várias cartas pedindo exemplares. Livros feitos por mim um dia
vão ser reconhecidos. Basta dizer que não tem universitário
que consiga fazer um livro desse tipo, falando de uma experiência
vivida, participando dos mistérios que a natureza nos oferece.
O importante é ter paciência. Com fé em Deus, um dia
irei publicar meus livros em várias línguas.
Quais
seus projetos para o futuro?
Há
uns dois anos que pelejo para fazer dois projetos. Um pedindo para reeditar
livros e outro pedindo um computador, um scanner, uma impressora, uma
máquina filmadora e uma câmara fotográfica de boa
qualidade, profissional. Tenho vontade de deixar um documentário
especial e outros materiais. Só em material o orçamento
do projeto atingiu R$12.800 mil e não foi aprovado, pois não
tinha dinheiro no IBAMA em Brasília. Mesmo assim vou aguardar.
O outro projeto, para rodar 10 mil livros, foi aprovado, mas nada aconteceu.
Dá a impressão de um negócio tramado que me deixou
completamente decepcionado.
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